terça-feira, junho 17, 2008

Relato de Thich Nhat Hanh sobre seu retorno ao Vietnã

Recentemente eu tive a experiência de ver o poder de um despertar coletivo quando eu voltei ao Vietnã com uma grande Sangha depois de quase quarenta anos de exílio. Eu vim para o ocidente com quarenta anos. Foi em 1966 quando eu fui aos Estados Unidos pedir o fim dos bombardeios. Os Estados Unidos tinham meio milhão de soldados no Vietnã. No final da guerra, mais de cinqüenta mil deles tinham sido mortos ou perdidos. Muitos milhões de civis vietnamitas morreram durante a guerra. A terra, florestas e água foram poluídas, destruídas por venenos químicos. Naquele tempo, eu já era um conhecido professor e escritor no meu país. Eu desejava ficar nos Estados Unidos por três meses, viajar pelo país e falar sobre a necessidade de parar a luta. Mas depois de três meses, soube que o governo do Vietnã não me queria de volta porque eu tinha ousado pedir por paz.

Muitos de nós no Vietnã sofremos muito e tínhamos visto muito sofrimento ao nosso redor causado pela guerra, portanto tínhamos que falar. Estávamos presos entre dois partidos em guerra e precisávamos falar. Mas muitos de nós não tinham como se expressar. Não havia rádio, nem televisão ou jornal que cobrissem a verdade da situação. Aqueles que ousavam falar contra a guerra eram presos. Portanto alguns se imolaram para atrair a atenção para a situação desafortunada das massas no Vietnã que não queriam a guerra. Apenas então a imprensa começou a perceber que a maioria dos vietnamitas não aceitava a guerra. É por isso que eu decidi viajar para o ocidente, para contar ao mundo sobre o sofrimento da nação e do povo vietnamita.

Depois que soube que o governo do Vietnã do Sul não me queria mais em casa, continuei meus apelos na América por paz e então fui para a Europa, Ásia e Austrália. Finalmente me estabeleci em Paris e iniciei uma comunidade de prática para continuar o trabalho pelo pedido de paz.

Durante aproximadamente quarenta anos no exílio, fizemos tentativas de negociar meu retorno ao Vietnã. Finalmente em janeiro de 2005, eu podia ir para casa. Quando eu deixei o Vietnã, era como uma célula removida de seu corpo. A Sangha é como um corpo, e cada membro é apenas uma célula deste corpo. Mas eu não sequei e morri como uma célula, porque eu trouxe toda a Sangha em meu coração. Eu fui ao ocidente pela minha Sangha e não como um indivíduo, e adiante eu comecei a construir uma pequena Sangha no ocidente. Agora, depois de quarenta anos, minha sangha no ocidente não é tão pequena.

Eu queria voltar ao Vietnã como uma Sangha, não como uma célula. No final, duzentas pessoas viajaram conosco de volta ao Vietnã. Queríamos chegar como uma verdadeira Sangha, mostrar nossa prática de entendimento e amor, porque sabíamos que se nossa prática fosse sólida, forte e autêntica, seríamos capazes de transformar o medo e a suspeita do governo.

Os membros de nossa delegação praticaram bem. No hotel, os leigos praticaram meditação sentada de manhã. Comeram apenas comida vegetariana, nunca tocaram em álcool, eram silenciosos e viviam juntos como uma sangha, em harmonia e em irmandade. Os gerentes do hotel estavam impressionados e diziam: “Eles transformaram nosso hotel em uma sala de meditação.”

A viagem foi difícil porque havia muito medo, muita suspeita. O Museu dos Criminosos de Guerra mostrava minha foto e da Irmã Chan Khong, minha assistente nos últimos cinqüenta anos. Antes da minha chegada, devido a alguns protestos, minha foto foi removida. Mas a foto da Irmã Chan Khong era ainda exibida durante nossa viagem de três meses.

Adicionalmente, durante meus quase quarenta anos de exílio, meus livros foram banidos no Vietnã por ambos os regimes, comunista e anticomunista, porque promoviam a paz e a irmandade, o que ambos os governos consideravam perigoso. Tivemos que negociar um acordo para que doze dos meus livros fossem publicados antes da minha chegada. Mas quando chegamos ao Vietnã, apenas quatro haviam sido publicados. O medo era tão grande!

Levou toda nossa viagem de três meses para que o governo do Vietnã se abrisse a nós. A presença da sangha de monjas, monges, leigos e leigas ajudou tremendamente. As pessoas viam os ocidentais aprendendo meditação e praticando bem. Isto os inspirou. Durante as palestras, presenciamos a transformação bem diante de nossos olhos. Éramos capazes de remover muitas percepções erradas das pessoas. Agora eles sabem muito melhor quem somos, porque muito medo e suspeita foram removidos. Se não fôssemos capazes de nos apoiar usando o poder da sangha e chamar as sementes da paciência, entendimento e compaixão em nós mesmos, teríamos reagido de forma raivosa e deixado o país no meio da viagem.

No início de nossa viagem, era claro que o governo não nos queria ensinando e em contato com as pessoas. Sabíamos que a prática tinha que ser estável e sólida para ser bem sucedida. A ala conservadora do partido tentou de tudo para evitar que as pessoas comparecessem a minhas palestras e ficassem expostas à nossa presença. Antes de chegarmos, soubemos que muitos monges e monjas foram advertidos que não deveriam comparecer aos eventos de nossa sangha ou teriam problemas depois que partíssemos.

Ainda assim continuamos calmos, humildes e sorrindo. Finalmente houve uma ruptura. O Instituto de Ciência Política em Saigon nos permitiu organizar uma palestra para intelectuais, especialistas, membros do partido comunista e membros do governo. Eles dispuseram assentos para trezentas pessoas. Mas como estávamos praticando a fala amorosa e escuta atenciosa, no último minuto conseguimos persuadi-los a deixar a multidão entrar. Naquele dia mais de mil ouviram a palestra. Eu compartilhei nossa experiência de ensinar a prática no ocidente. Eles estavam muito interessados. No final perguntaram várias questões, entre elas essa: “ Se você toma refúgio nas Três Jóias (o Buda, o Dharma e a Sangha), tem ainda o direito de amar seu país e o partido comunista?” Minha resposta veio muito rapidamente e foi muito simples: “ Se ao tomar refúgio nas Três Jóias significa que você perde o direito de amar seu país e o partido, para que serve tomar os refúgios? Todos aplaudiram a resposta por muito tempo. Esta declaração foi reportada ao governo central e a cada braço do partido.

É por isso que quando fui para Hue, permitiram que déssemos palestra para membros do partido comunista, intelectuais e membros do governo. Seis ou sete mil pessoas vieram. E quando fomos a Hanói pela segunda vez, cinco palestras foram organizadas para membros do partido, intelectuais e membros do governo. Todos eles estavam famintos de espiritualidade. Estar com nossa delegação e comigo era uma oportunidade para eles expressarem isso abertamente. No Instituto Político em Ho Chi Minh em Hanói, muitos organizadores comentaram que o diálogo e discussão entre o marxismo e o budismo era crucial. Um membro do partido comunista até ousou dizer que o partido fez grandes erros. Organizadores expressaram um desejo de renovar seu país e aprender mais. A atmosfera era aberta e humana. E era possível sentir a liberdade. Você podia tocar a liberdade de expressão. Era maravilhoso: pode ter sido a primeira vez que as pessoas ousaram falar assim.

Eu fui capaz de ser direto, mas não feri ninguém porque meu coração estava cheio de compaixão e irmandade. Eu disse coisas como, “Sabe, em Plum Village vivemos de forma simples. Monges, monjas e leigos vivemos juntos como uma família. Ninguém tem um carro particular. Ninguém tem uma conta de banco particular. Ninguém tem um telefone particular. Na verdade, nós somos os verdadeiros comunistas.” Eles riram e riram. Eles não estavam absolutamente com raiva. E nossa mensagem atingiu sem fim.

Havia pessoas que temiam por minha segurança porque eu ousei tocar em questões importantes, incluindo corrupção no governo. Ainda assim sentíamos que podíamos falar a verdade, podíamos compartilhar o que estava em nosso coração, porque sabíamos como usar a linguagem da fala amorosa. Como resultado desta atenção em usar meios hábeis para atingir as pessoas, o nível de raiva e medo caiu a cada dia, e uma mudança real aconteceu no governo. Esta experiência nos mostrou de forma poderosa como uma pequena minoria praticando diligentemente pode influenciar a maioria. O indivíduo pode de fato transformar o coletivo.

2 comentários:

fsmaia disse...

Sinceramente, me deu vontade de chorar. Fantástico.

Bia disse...

O Thay realmente é inspirador!!
=)
bjo procês