sábado, maio 23, 2009

Pimentão

Saiu o ranking dos alimentos movidos a agrotóxico. Cruzando na frente a faixa de chegada vem o pimentão, vermelho como uma Ferrari envenenada. Graças a Deus eu não ligo para pimentão. Mas para cenoura eu ligo, para tomate, brócolis, couve, espinafre, agrião, alface. Fiz muito regime na vida, cresci comendo salada; quando se é jovem, a vaidade conta mais que a própria vida. Há vinte anos não existiam os orgânicos nos supermercados, somente a carne e o açúcar acendiam o sinal de alerta dos mais naturebas. O nascimento do meu filho mais velho, há nove anos, foi o divisor de águas da geladeira lá de casa. Só aí aboli os pesticidas do cardápio. Frango e ovo também, só se forem de galinhas caipiras. Treinamento de guerreiro espartano é pinto perto dos horrores praticados nas granjas. Quando eu vejo um paillard de frango, me dá vontade de chorar. Dizem que as galinhas não andam, que as luzes nunca se apagam para que ponham mais ovos, que enchem as coitadas de hormônio. A coisa é séria. Nasceu barba na bebê de uma amiga quando a menina começou a tomar canja. Pararam de dar frango, a barba sumiu. Já ouvi de um médico que essas máquinas que fazem suco com casca e tudo poderiam ser batizadas de "Jesus me chama" porque o mata-peste acumulado na casca vai para o copo junto com a fruta.

Eu como muito atum. Achava saudável até descobrir que, além das doses mortíferas de mercúrio entranhadas no peixe, o que chega a nossa mesa é tão de granja quanto as penosas, alimentado com a mesma ração. Além do mais, o bendito ômega 3 só é encontrado no atum selvagem, daqueles que nadam quilômetros em mar aberto. O mesmo acontece com o salmão. Esse peixe só é rosa porque come krill em alto-mar. O tom avermelhado do salmão que chega às nossas feiras é pura maquiagem de betacaroteno. Tanto que salmão na minha infância era iguaria rara, hoje dá mais que chuchu na serra.

Meus pais compraram um sítio não muito grande em Teresópolis há mais de quarenta anos. É uma região de pequenos agricultores, na grande maioria veneneiros. A única mata nativa que restou no vale está na nossa propriedade. A do vizinho foi toda torrada em fomos de carvão junto com um pomar centenário. O que nós vimos de atrocidades naturais acontecerem em volta não está no gibi. Vimos e, confesso, também cometemos algumas.

Meu pai tinha o sonho de ser fazendeiro e tentou realizá-lo modestamente no sítio. Lembro dele manuseando um galão de agrotóxico como se fosse a grande solução da lavoura. Eram os anos 70, e não se falava em alternativas viáveis para o plantio. O sonho de fazendeiro do meu pai morreu junto com o seu Almeida, o agricultor que cuidava da plantação. Seu Almeida prosperou a ponto de comprar um Fusca. Num fim de semana mais animado, voltando para casa com o teor alcoólico acima do permitido, enfiou o Fusca debaixo de um caminhão e nunca mais o sítio foi produtivo. Estranhamente, essa tragédia acabou salvando nossa terrinha.

Marcos Palmeira tem sua fazenda de orgânicos quase vizinha à nossa propriedade. Ele e seu sócio senegalês, Ali, nos convenceram a replantar o sítio com as técnicas limpas que dominam. O solo virgem, parado há mais de vinte anos, permitiu que já se entrasse plantando. Eles puxaram a água da nascente por gravidade, sem motores, bombas ou baterias, e plantaram vários pés de limão siciliano e uma horta para os de casa. Tudo com irrigação por gotejamento, sem desperdício. Construíram um galinheiro arejado, com umas galinhas lindas que ciscam no meio da plantação e produzem ovos, carne e adubo. Vingou tudo o que se pode imaginar. Dá orgulho ver. Justamente agora, na semana em que o ministro da Saúde afirmou que não come mais pimentão, estamos recebendo em casa nossa primeira cesta básica. Só lamento meu pai não estar aqui. Acho que ele ia gostar de ser fazendeiro com selo verde de qualidade.

- Fernanda Torres (publicado na Veja Rio em 29 de abril de 2009)

Um comentário:

Mak disse...

Viva...

Cada vez que sonhamos, pensamos, falamos e agimos para pôr em prática uma acção, deveriamos ter a conciência que estamos a interagir com outros seres para além de nós... enquanto não houver essa consciência o mundo continua com está...


Abraço de Luz,

Mak